quarta-feira, dezembro 24, 2014

Natal Amoroso

AMAR
Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho,
e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor à procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa, amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.
Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, dezembro 22, 2014

A profissão levou-me à televisão!

Se há área da vida em que sou flamejada por boas correntes é a área profissional!
Na passada semana dei uma pequena entrevista à TVI, que passou ontem no Jornal das 8h.
Diria que ficou muito bem!
Para quem quiser espreitar está aqui (minuto 10:32)

sexta-feira, dezembro 19, 2014

Há dias com banda sonora



De onde vem a calma daquele cara?
Ele não sabe ser melhor, viu?
Como não entende de ser valente?
Ele não sabe ser mais viril
Ele não sabe não, viu?
Às vezes dá como um frio
É o mundo que anda hostil
O mundo todo é hostil
De onde vem o jeito tão sem defeito?
Que esse rapaz consegue fingir
Olha esse sorriso tão indeciso
Tá se exibindo pra solidão
Não vão embora daqui
Eu sou o que vocês são
Não solta da minha mão
Não solta da minha mão
Eu não vou mudar, não
Eu vou ficar são
Mesmo se for só
Não vou ceder
Deus vai dar aval sim
O mal vai ter fim
E no final, assim, calado
Eu sei que vou ser coroado
Rei de mim

quarta-feira, novembro 19, 2014

O Sr J é mais que a sua HTA

O Sr J já frequenta a consulta de nutrição há algum tempo (anos!). É homem novo, mas já teve um AVC por conta da sua HTA, que tem origem numa doença renal. Importa recomendar-lhe o baixo consumo de sal, de carne e de peixe. Importa que beba muita água, aumente nos vegetais e na fruta. Importa muito que cumpra com a medicação, para a qual nem sempre tem disponibilidade financeira. Por isso importa que lhe sejam fornecidos alimentos e facilitadas outras condições para fazer face às circunstâncias do desemprego. Importa que seja ouvido naquilo que muitas vezes achei ser a ilusão de um novo emprego. Importam todos os cursos que fez que, sem saber, lhe traziam mais saúde, além da sabedoria, dadas as horas que caminhava para a eles chegar. Importa muito a sua mensagem de esperança quando hoje chega à consulta, sempre de sorriso nos lábios, de agenda na mão (mesmo durante os anos de desemprego) e nos diz agora que está de novo empregado, nas empresa em que tinha trabalhado há muitos anos. E que tem cantina e que tem ginásio! 
E eu digo: 
- O Sr J merece!
E ele responde:
- Todos merecem!
O Sr J importa no meu dia!

quinta-feira, outubro 23, 2014

A medida do amor

Não é mais forte nem mais fraco. 
Não é melhor o meu do que o teu. 
É o que completas em mim, o que completo em ti. 
É o que desperta e é despertado. 
É a complementaridade que pode nem ser do todo. 
O essencial é quanto basta.

quinta-feira, outubro 02, 2014

juntos

estavam ambos num daqueles estados de contentamento em que basta sorrir. mas tinham tanto para contar um ao outro que as palavras abundavam entre ambos e atropelavam-se entre temas e desculpas de interrupções e sorriam. não riam. sorriam na timidez de quem apetece gargalhar.

sábado, setembro 27, 2014

no aeroporto

passava pouco das 8h30 daquela manhã de agosto. acabara de chegar ao aeroporto e levava consigo um frenesim interno difícil de definir. sentia-o nos braços, no estômago, no peito. subia-lhe à face e sorria como quem respira.

as "chegadas" do aeroporto estavam apinhadas. havia muitas pessoas por todo o lado. os que chegavam, os que recebiam os recém-chegados e os que esperavam. distinguir entre uns e outros era uma questão de atenção. os sorrisos nas faces de uns ajudavam a perceber quem já tinha recebido os seus, as flores nas mãos de outros indicavam quem tinha chegado, as crianças nos colos dos pais uniam famílias que não se deviam separar.
e esperava. olhava para todo o lado para não escapar a recepção. teria já chegado? eram quase 9 da manhã, entretanto. estaria discretamente sentado? andaria já por ali?! não lhe escaparia por certo. passara-se bastante tempo desde a última vez que se haviam encontrado, mas não lhe escaparia por certo!
não escapou! perto das 9h lá vinha a sair da zona dos passageiros. cabelo negro, pólo bordeaux, mochila às costas, um saco na mão. caminhava com a cabeça erguida à sua procura. já o vira. ainda não tinha sido vista. sorria. sorria como quem respira. viram-se. seguiram-se alguns segundos que não lhe ficaram registados. são os dos passos até ao encontro de um com o outro. não se lembra dos passos. lembra-se dos sorrisos, de braços abertos, não exageradamente abertos, apenas o suficiente para se acolherem. acolheu-a. entregou-se. sentiram-se. e naquela abraço mergulhou para dentro do seu peito. e ficou lá. lá dentro ouviu um beijo sonoro e carnudo na sua bochecha direita. olharam-se com um sorriso que nasce nos olhos e desce até à boca. absorveu a sua cara com as mãos. ele entrou-lhe pelas mãos. olharam-se de novo. não tinha passado tempo algum e o aeroporto tinha desaparecido!

sábado, setembro 20, 2014

excerto de "O segredo de Compostela"

"O mestre explicara-lhe que desde tempos imemoriais, havia gente de sítios distantes, nomeadamente das Gálias, mesmo antes de aquelas terras pertencerem a Roma, que seguia o caminho das estrelas, orientada pela Via Láctea, em direcção ao mar da finis terrae, perto da villa onde viviam. - Mas o que vêm fazer, ao certo, a este lugar? - Nós vivemos num lugar mágico, o último reduto da Terra. É o lugar onde o Sol se põe todos os dias para, no seguinte, voltar a nascer.- Assim, os homens que querem fazer uma viagem interior, para crescerem espiritualmente como homens novos, seguem o caminho das estrelas e vêm render homenagem ao sol, para renascerem com ele na manhã seguinte. -Não entendo muito bem o que dizes... -Um dia, perceberás estes homens especiais, os peregrinos da Via Láctea. Os que viajam em busca da redenção interior, através de um caminho de perfeição. - E porque seguem a Via Láctea? - Porque simboliza o caminho das almas para o outro mundo. Numa noite de luz, repara como ela se orienta do lugar de onde o sol nasce para este lugar, onde se põe...- respondeu o Lívio, passeando o olhar através da abóbada celeste. -Não deve ser muito fácil esse caminho...Normalmente, parecem pedintes e malcheirosos. -É evidente! Os caminhos de perfeição são compostos por muitos escolhos...- Vêm com o único propósito de...se encontrarem a si próprios. Esse é o fim de qualquer peregrinação.”

domingo, setembro 14, 2014

Seja como for, Banda do Mar



Meu bem, você pra mim é privilégio (e elogio!)

Sorte grande de uma vez na vida (de uma, de duas, três e todas as vividas!)
Minha chance de ter alegria (n diria tanto! tenho a felicidade de várias alegrias!)
Não importa quando, como, onde (é que não importa mesmo! mas se o "quando" poder ser com intervalos pequenos será melhor ainda!)
Somos o nosso próprio rei  ... 


sexta-feira, setembro 12, 2014

Mais ninguém, banda do mar

"Mais Ninguém" recebe o prémio de canção mais viciante do fim do verão. Faz parte do disco estreia da "Banda Do Mar" grupo da tripla Mallu Magalhães e Marcelo Camelo (casal de músicos brasileiros residente em Lisboa) e Fred (o omnipresente baterista português, elemento dos Buraka, Orelha Negra, 5-30, e não sei quantas bandas mais).

E não é que faz sentido!!

sábado, setembro 06, 2014

ou um estado de arte

Mantende-vos juntos, 

mas nunca demasiado próximos: 
porque os pilares do templo 
elevam-se, distanciados, 
e o carvalho e o cipreste 
não crescem à sombra um do outro. 
.
in "O Profeta", de Khalil Gibran