






As surpresas, as novidades, as novas experiências não terminavam. Neste dia, a diferença foi marcada por um Chá de Panela! Tradição brasileira que antecede o casamento. A noiva é recebida pelas suas amigas num lanche cheio de boa disposição. Não faltam os presentes que revelam quão antiga é a tradição: os utensílios domésticos! Aqueles que a noiva não adivinha dão lugar a fantasias na própria: plumas, pinturas, véu (de papel higiénico) e grinalda (uma bandelete), como manda a tradição! Ficou a faltar a volta ao quarteirão, com a panela em punho e a colher de pau, para anunciar sonoramente o casamento na semana seguinte.
Ainda no mesmo dia conheci a Lagoa Rodrigo de Freitas, um excelente local para a prática de exercício físico. Sete quilómetros e meio de perímetro ajudaram a digerir o tanto consumido até então. Mas mais do que isso, na lagoa relaxa-se através da água, das árvores, das aves. A meio do caminho refrescamo-nos com uma água de côco.
Um dos bairros mais pitorescos do Rio de Janeiro é o de Santa Teresa. Rodeado de “comunidades”, Santa Teresa é um bairro que vai dar a qualquer lado da cidade. As ruas são íngremes e de paralelepípedos já gastos. O eléctrico sobe ao ponto mais alto do bairro, fazendo lembrar o 28, em Lisboa, que vai até à Sé. Mas estamos no Brasil e o sambinha de rua lembra-nos isso mesmo. Santa Teresa é um bairro alternativo, onde vivem artistas e o Ricardo e o Marcelo! Receberam-nos com um verdadeiro manjar. Sem palavras para descrever, espero jamais tirar da minha memória aquele almoço de camarão na moranga, acompanhado de puré de banana da terra e farofa de dendê. Havia também arroz, mas ignorei-o completamente. Sobremesa: petit gâteau de doce de leite, com gelado de tapioca!
Et voilá! Comemos como os deuses! Diria mesmo, que foi das melhores refeições que comi em toda a minha vida! A companhia estava maravilhosa, A banda sonora tocou entre Rodrigo Leão, Marisa Monte e outros artistas de mpb. O Pedro Henrique, gato da casa, fez as honras ronronando e dormindo, como qualquer gato mimalho!
No parque das ruínas de Santa Teresa podemos ver o Rio de Janeiro em 360º. Valeu a pena!
Este dia teve ainda um happy ending, na companhia dos simpáticos primos e, claro está, à volta da mesa! O jantar, pena estar sem vontade de comer, foi um rodízio de comida japonesa!
Definitivamente, uma herança de Portugal no Brasil, foi esta tradição de receber à mesa e com mesa farta!
Jamais, há seis anos atrás, quando formulei o desejo de um dia voltar ao Rio de Janeiro, imaginei concretizá-lo, muito menos nesta especial condição de turista. Foi com um silencioso prazer que voltei a pisar o Pão de Açucar e revi aquela cidade vista do alto, abraçada pelo Cristo, na melhor companhia. Como dizê-lo? Só sentir o privilégio de lá estar, sorrir, fotografar e falar muito baixinho...
No dia seguinte retoma-se o turismo de turista, já depois de algum turismo familiar e gastronómico. Um belo apartamento, que se apresenta com vista para o Cristo que abraça a cidade, será testemunha de um novo lar. O almoço serve-se delicioso e fico a saber que os cariocas comem os bolinhos de bacalhau abertos ao meio e regados de azeite!
Ainda no mesmo dia, o turismo mantém-se essencialmente gastronómico: bobó de camarão! Caseiro! Receita de avó! As melhores, pois então! Com um apontamento lusitano nos sabores do queijo da Serra da Estrela. Esse levei eu!
Estas últimas férias tive o privilégio de experimentar o melhor turismo! Aquele em que nos inserimos no meio dos locais, um pouco o turismo de turista, bem complementado pelo turismo gastronómico e colmatado pelo turismo familiar!
Dez horas de voo valem a pena quando a recepção é a melhor que podemos esperar. O calor da cidade num abraço apertado, a tropicalidade num vaso de flores, as boas vindas em cerca de 15 sorrisos diferentes.
O jet lag é ultrapassado passeando como um verdadeiro turista faz. Fotografias tentam imitar os postais mais típicos da cidade.
Caetano Veloso